Lisboa,

quinta-feira, abril 28, 2011

sobre o espaço não-consciente



Vamos beber ao inconsciente cognitivo com bastante regularidade, ao longo do dia, e delegamos discretamente na sua perícia uma série de tarefas, entre elas a execução de certas reacções.
Delegação da perícia no espaço não-consciente é o que fazemos quando apuramos uma competência a tal ponto que deixamos de ter noção dos passos técnicos necessários para sermos competentes. Desenvolvemos as competências à luz brilhante da consciência, mas depois enterramo-las na cave espaçosa da nossa mente, onde não atravancam os exíguos metros quadrados do nosso espaço de reflexão consciente.
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O esquema básico dos nossos circuitos cerebrais é formulado pelo genoma e esse esquema básico contém o primeiro repertório de conhecimentos não-conscientes com que o nosso organismo pode ser dirigido. Esse conhecimento tem a ver, em primeiro lugar e acima de tudo, com a regulação vital, questões de vida e morte, e de reprodução; contudo, devido precisamente à centralidade dessas questões, o esquema promove uma série de comportamentos que podem aparentar ser decididos pela cognição consciente, mas que são, na verdade, impulsionados por disposições não conscientes. As preferências espontâneas que manifestamos logo desde o início da vida, quanto a comida e bebida, companheiros e habitats, são impulsionados em parte pelo inconsciente genómico, embora possam ser adaptadas e modificadas pela experiência individual ao longo de todo o desenvolvimento.
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Além das emoções universais, há dois grupos de emoções comummente identificados que merecem uma menção especial. Há alguns anos chamei a atenção para um destes grupos e dei-lhe uma designação: emoções de fundo. Entre outros exemplos temos o entusiasmo e o desencorajamento, duas emoções que podem ser activadas por uma série de circunstâncias factuais na vida de um indivíduo mas que também podem surgir devido a estados internos como a doença e a fadiga. Ainda mais do que no caso de outras emoções, o estímulo emocionalmente competente das emoções de fundo pode funcionar de forma encoberta, desencadeando a emoção sem que nos apercebamos da sua presença. Essas emoções podem ser desencadeadas quando reflectimos sobre uma situação que já aconteceu ou quando pensamos numa situação que é ainda uma mera posssibilidade. As emoções de fundo são parentes próximas dos estados de humor mas diferem destes pelo seu perfil temporal mais circunscrito e pela identificação mais apurada do estímulo.


(António Damásio in O livro da consciência)

1 Comentários:

At abril 28, 2011 1:40 da tarde, Blogger A P diz...

Olá doce Amaral.
Mais um post, interessante!

Definição de entusiasmo:Estado do espírito impelido a manifestar a admiração que o assoberba.
Força, veemência; transporte, arrebatamento.
Paixão viva; inspiração.

Definição de desencorajamento:Tirar a coragem.
Desanimar.

Bem, isto só para reforçar a ideia, pois...ninguém ainda foi capaz de controlar as emoções, embora hajam alguns "experts" na matéria e assim o sugiram!
Sabes, tenho certeza que a emoção, faz-nos ser maiores e consequentemente, melhores.
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Hum...rsrs, acho que divaguei, né?
Tudo isto para dizer, gostei!!
Fica bem.

 

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